Gosto muito de dinheiro

By 17.3.16 ,


Certa vez, alguns amigos resolveram fazer uma reunião em minha casa para jogar conversa fora e tocar um pouco de violão. Era uma calorenta tarde de domingo em uma pequena cidade interiorana. Lembro-me que eu não estava nem um pouco a fim de sair e, portanto, bater um bom papo para encerrar a tarde se mostrava uma excelente pedida.
 
Neste dia, no período da manhã, eu havia lido alguns capítulos de um livro sobre finanças pessoais e por algum motivo acabei esquecendo-o sobre o sofá. Horas depois, antes que eu o percebesse ali, com as páginas escancaradas, a companhia tocou, era Carlos e seu inseparável violão. Quando se deparou com o livro foi logo me questionando:

- Ei, você gosta de dinheiro, não é?

- Sim, gosto de dinheiro e de muito dinheiro. Havia Respondido prontamente, sem titubear.

- E você? Gosta de dinheiro? Responda apenas sim ou não.

Carlos imediatamente começou a expor suas convicções a respeito do dinheiro, coisas como: dinheiro não é tudo na vida, dinheiro não traz felicidade, isto é coisa do demônio, e por aí vai. Citou vários exemplos de como o dinheiro só atrai o que não presta. Enfim, eu não tinha obtido resposta alguma.

Uns trinta minutos depois a campainha anunciou a chegada de alguém. Abri a porta e Rubens, mais de que depressa, já começara com as piadas. Este não perdia tempo, era um cara bem animado. Após encenar a gostosa piada e finalmente conseguirmos parar de gargalhar, então, eu cortei caminho e fui direto ao ponto:

- Rubens, responda apenas sim ou não. Você gosta de dinheiro?

Ainda meio embaraçado pela pergunta totalmente fora de um contexto, começou a desenhar a velha ladainha, semelhante à de Carlos, incrementada com risadas para encobrir o constrangimento.

Faltava ainda chegar mais uma pessoa, a minha vizinha e, diga-se de passagem, uma moça muito religiosa, criada desde a infância segundo os preceitos da religião dos pais e muito perspicaz. Eu tinha imaginado logo – serei crucificado até o final da tarde. Enquanto ela não chegava, começamos cantar algumas músicas da Legião Urbana.

Acho incrível esta crença coletiva que bloqueia a mente de muita gente quando o assunto é dinheiro. De cara criam dois grupos bem distintos: os bonzinhos (pobres) e os malvados (ricos). Os bonzinhos querem apenas dinheiro para sobreviver e os malvados querem dinheiro para manipular, pisarem umas sobre as outras e são até capazes de dizimar famílias pelo dinheiro. Nossa, são uma corja de bandidos.

Ainda na adolescência, após me desfazer destes pensamentos estigmáticos,  comecei a perceber que talvez  existam apenas três grupos: os que sabem fazer o dinheiro trabalhar por eles, os que ainda não sabem fazer o dinheiro trabalhar e os que não sabem nada sobre o dinheiro e nunca saberão.

Penso que as pessoas deveriam dedicar tempo para estudar alguns assuntos relacionados a dinheiro: como ganhar, investir, planejar o futuro, organizar o presente, etc. Estas crenças antigas e enraizadas na cultura geral limitam as pessoas de prosperarem e usufruir o que o dinheiro pode proporcionar como uma melhor saúde, educação, conforto, ajudar ao próximo, abrir um negócio, gerar empregos e etc.

Para mim é claro o fato de que o dinheiro não molda o caráter de ninguém, apenas evidencia quem as pessoas realmente são. Se sem dinheiro a pessoa já não prestava, com dinheiro se tornará um exímio inescrupuloso. Por outro lado, se a pessoa sempre foi um poço de bondade sem dinheiro, com dinheiro provavelmente se tornará um rio de ações filantrópicas.

De repente a companhia interrompeu a animada cantoria.  A turminha fez um misterioso silêncio e já esboçavam um sorriso bem irônico aguardando o derradeiro momento em que iriam cravejar a estaca em meu peito. Abri a porta e Maria entrou bem tranquila, cumprimentando todo mundo, até o cachorrinho. Após alguns minutos de sua chegada fiz a tão esperada pergunta.

- Maria, você gosta de dinheiro?

Maria suspirou, mirou os olhos sobre nós e disparou:

- Gosto.

Foi curta, grossa e sincera!

- Você, Maria? Tão religiosa! Surpreendeu-se Carlos, se levantando atônito.

- Rapazes, me expliquem a relação entre dinheiro e religião?

Questionou Maria calmamente e em tom baixo, como de costume, mas sempre de olho em nossas reações.

- Em nome do dinheiro tantas bobagens foram, são e serão realizadas, da mesma maneira que em nome da religião muitas barbaridades foram, são e serão cometidas. Completou.

Um rápido silêncio ecoou pela sala e Maria continuou:

- Gente, não complique. Aprendam a não serem escravos nem do dinheiro e nem da fé cega.

Maria não parou de falar, continuou explanando seu pensamento com maestria e tranquilidade. O violão? Não ousou dar mais um pio até o final daquela tarde. Lembro-me que eu não pude me conter e comecei a rir, afinal, logo de quem viera a resposta mais sincera e verdadeira. Maria nos deu uma aula de história, religião, economia e finanças pessoais. Amém!


You Might Also Like

14 comentários

Fica a critério do administrador do blog GERAÇÃO 65 excluir comentários considerados ofensivos ou que contenham palavras de baixo calão.