Gosto muito de dinheiro


Certa vez, alguns amigos resolveram fazer uma reunião em minha casa para jogar conversa fora e tocar um pouco de violão. Era uma calorenta tarde de domingo em uma pequena cidade interiorana. Lembro-me que eu não estava nem um pouco a fim de sair e, portanto, bater um bom papo para encerrar a tarde se mostrava uma excelente pedida.
 
Neste dia, no período da manhã, eu havia lido alguns capítulos de um livro sobre finanças pessoais e por algum motivo acabei esquecendo-o sobre o sofá. Horas depois, antes que eu o percebesse ali, com as páginas escancaradas, a companhia tocou, era Carlos e seu inseparável violão. Quando se deparou com o livro foi logo me questionando:

- Ei, você gosta de dinheiro, não é?

- Sim, gosto de dinheiro e de muito dinheiro. Havia Respondido prontamente, sem titubear.

- E você? Gosta de dinheiro? Responda apenas sim ou não.

Carlos imediatamente começou a expor suas convicções a respeito do dinheiro, coisas como: dinheiro não é tudo na vida, dinheiro não traz felicidade, isto é coisa do demônio, e por aí vai. Citou vários exemplos de como o dinheiro só atrai o que não presta. Enfim, eu não tinha obtido resposta alguma.

Uns trinta minutos depois a campainha anunciou a chegada de alguém. Abri a porta e Rubens, mais de que depressa, já começara com as piadas. Este não perdia tempo, era um cara bem animado. Após encenar a gostosa piada e finalmente conseguirmos parar de gargalhar, então, eu cortei caminho e fui direto ao ponto:

- Rubens, responda apenas sim ou não. Você gosta de dinheiro?

Ainda meio embaraçado pela pergunta totalmente fora de um contexto, começou a desenhar a velha ladainha, semelhante à de Carlos, incrementada com risadas para encobrir o constrangimento.

Faltava ainda chegar mais uma pessoa, a minha vizinha e, diga-se de passagem, uma moça muito religiosa, criada desde a infância segundo os preceitos da religião dos pais e muito perspicaz. Eu tinha imaginado logo – serei crucificado até o final da tarde. Enquanto ela não chegava, começamos cantar algumas músicas da Legião Urbana.

Acho incrível esta crença coletiva que bloqueia a mente de muita gente quando o assunto é dinheiro. De cara criam dois grupos bem distintos: os bonzinhos (pobres) e os malvados (ricos). Os bonzinhos querem apenas dinheiro para sobreviver e os malvados querem dinheiro para manipular, pisarem umas sobre as outras e são até capazes de dizimar famílias pelo dinheiro. Nossa, são uma corja de bandidos.

Ainda na adolescência, após me desfazer destes pensamentos estigmáticos,  comecei a perceber que talvez  existam apenas três grupos: os que sabem fazer o dinheiro trabalhar por eles, os que ainda não sabem fazer o dinheiro trabalhar e os que não sabem nada sobre o dinheiro e nunca saberão.

Penso que as pessoas deveriam dedicar tempo para estudar alguns assuntos relacionados a dinheiro: como ganhar, investir, planejar o futuro, organizar o presente, etc. Estas crenças antigas e enraizadas na cultura geral limitam as pessoas de prosperarem e usufruir o que o dinheiro pode proporcionar como uma melhor saúde, educação, conforto, ajudar ao próximo, abrir um negócio, gerar empregos e etc.

Para mim é claro o fato de que o dinheiro não molda o caráter de ninguém, apenas evidencia quem as pessoas realmente são. Se sem dinheiro a pessoa já não prestava, com dinheiro se tornará um exímio inescrupuloso. Por outro lado, se a pessoa sempre foi um poço de bondade sem dinheiro, com dinheiro provavelmente se tornará um rio de ações filantrópicas.

De repente a companhia interrompeu a animada cantoria.  A turminha fez um misterioso silêncio e já esboçavam um sorriso bem irônico aguardando o derradeiro momento em que iriam cravejar a estaca em meu peito. Abri a porta e Maria entrou bem tranquila, cumprimentando todo mundo, até o cachorrinho. Após alguns minutos de sua chegada fiz a tão esperada pergunta.

- Maria, você gosta de dinheiro?

Maria suspirou, mirou os olhos sobre nós e disparou:

- Gosto.

Foi curta, grossa e sincera!

- Você, Maria? Tão religiosa! Surpreendeu-se Carlos, se levantando atônito.

- Rapazes, me expliquem a relação entre dinheiro e religião?

Questionou Maria calmamente e em tom baixo, como de costume, mas sempre de olho em nossas reações.

- Em nome do dinheiro tantas bobagens foram, são e serão realizadas, da mesma maneira que em nome da religião muitas barbaridades foram, são e serão cometidas. Completou.

Um rápido silêncio ecoou pela sala e Maria continuou:

- Gente, não complique. Aprendam a não serem escravos nem do dinheiro e nem da fé cega.

Maria não parou de falar, continuou explanando seu pensamento com maestria e tranquilidade. O violão? Não ousou dar mais um pio até o final daquela tarde. Lembro-me que eu não pude me conter e comecei a rir, afinal, logo de quem viera a resposta mais sincera e verdadeira. Maria nos deu uma aula de história, religião, economia e finanças pessoais. Amém!


14 comentários:

  1. Quando me perguntam isso, eu respondo logo na lata: "DINHEIRO É SEMPRE BOM". Comigo é tolerância zero.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As respostas de muita gente deveriam ser assim, diretas e bem claras. Pena que para muita gente impera ainda a visão distorcida sobre o dinheiro.

      Excluir
  2. Concordo. E digo mais, parafraseando o Pondé em uma entrevista: o dinheiro é sincero. Esta sinceridade assusta muitos incautos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isto mesmo, RéT. Será que é porque o dinheiro revela a verdadeira alma de cada um?

      Excluir
  3. Quando o assunto é dinheiro eu cito meu exemplo para explicar e as pessoas conseguirem entender.
    Como sou diabético e dependo de remédios caros, digo que como tenho dinheiro, consigo manter minha saúde como se não fosse diabético, visto que tenho acesso ao melhor no meu tratamento.
    Se não tivesse dinheiro, dependeria da saúde pública, aí ,,,, bem, ai já viu né.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este é um exemplo do bom uso do dinheiro. Fica óbvio que ele é importante. A manutenção da saúde é uma das prioridades em nossa vida, assim como a segurança e educação. Com dinheiro conquistamos tais prioridades com melhor qualidade, então, porque não gostarmos de dinheiro?

      Excluir
  4. A penúltima frase resumiu bem toda a história, o que conta mesmo é não se tornar escravo do papel verde, tenha mt ou tenha pouco, o dinheiro não pode ser o fim, e sim o meio.
    Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É como uma estrofe do poema de Victor Hugo:

      Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
      Porque é preciso ser prático.
      E que pelo menos uma vez por ano
      Coloque um pouco dele
      Na sua frente e diga "Isso é meu",
      Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

      Abraço.

      Excluir
  5. Aquela velha história de fazer o dinheiro trabalhar pra você e não trabalhar pro dinheiro!

    Texto bem legal, pena que falta bom senso para a maioria das pessoas que não conseguem ter controle sobre o dinheiro e acabam dominadas pela sensação de poder que ele pode trazer...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gabriel, penso que o dinheiro seja um dos motivos que nos leva acordar cedo e cumprir longas horas de trabalho. Porém, de posse dele, forme sua equipe de trabalhadores, poupando o máximo que puder e depois invista, ponha a equipe para trabalharem para você, gerando renda. Para que isto aconteça temos que ter um mínimo de educação financeira. Assim, saberemos o que temos nas mãos e como multiplicá-lo e utilizá-lo de maneira adequada para te proporcionar uma boa qualidade de vida, realizar seus sonhos e ajudar outras pessoas, porque não?

      Excluir
  6. Durante muitos anos também fui como seus amigos.
    Acho que é da nossa cultura.
    Hoje, posso dizer que gosto do dinheiro pela independência que ele pode proporcionar, mas acredito existirem muitas outras coisas mais importantes (saúde, tempo livre e família).
    Dinheiro pode inclusive ajudar a conquistar algumas dessas coisas mais importantes (pode contratar um bom médico, gerar renda que o dispense de trabalhar, pode garantir um bom lar), mas certamente não as substitui.
    Como disse o uó, ele é um meio, não um fim em si mesmo.
    Se a busca por sua acumulação resultar em perda de saúde, horas trabalhadas em excesso ou o distanciamento dos familiares, ele passa a ser um mal maior do que não o ter.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo plenamente contigo.
      Temos que viver sempre buscando o equilíbrio.

      Excluir
  7. A real pergunta é: Maria é bonita? Hahaha.
    Eu gosto mesmo é do poder. Desde o mais básico de poder fazer o que você gosta (desde que não machuque outros), até o poder de viajar hoje mesmo para outro país para esquecer um pouco desse burburio que se passa em nossa pátria amada hehehe.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela, sem dúvida, é uma pessoa charmosa. Mas de uma beleza normal, sem nada de exuberante (rsss).

      O dinheiro nos dá a chance de termos escolhas, como por exemplo a opção de sairmos do país, se não estivermos satisfeitos com ele ou descrentes de que as coisas podem melhorar ou mesmo optarmos por ficar para ajudar a mudá-lo.

      Você fez uma boa lembrança, afinal, toda esta bagunça em nosso país foi movida pelo dinheiro. Drenaram os cofres públicos de uma maneira bem articulada e encheram os próprios bolsos. Isto é fato, sem entrar no mérito político. Está aí um exemplo do lado negativo do dinheiro, a ganância.

      Excluir

Fica a critério do administrador do blog GERAÇÃO 65 excluir comentários considerados ofensivos ou que contenham palavras de baixo calão.

Tecnologia do Blogger.