Eu não nasci em berço de ouro



Eu venho de uma família pobre e nem por isto tive uma infância infeliz. Nesta fase eu gostaria de ter tido vídeo games, carrinhos de controle remoto ou outras parafernálias eletrônicas, porém, tive à disposição um monte de árvores para escalar, a turminha do futebol no campinho de terra batida ou belos banho de cachoeira com a família.

O dia-a-dia dos meus pais era lutar para garantir a sobrevivência de todos e uma educação escolar razoável tanto para mim quanto para meu irmão. Minha mãe não se cansava de repetir que para sermos iguais a eles não precisaríamos estudar, portanto, teríamos a obrigação de sermos melhores.

Nós sabíamos que a vida deles não era nada fácil. Para ter o prato de comida sobre a mesa todos os dias a luta era ferrenha e meus pais nunca a esconderam isto de nós. Portanto, desde o primeiro ano letivo fomos doutrinados pela minha mãe: "Estudem bastante e se saiam bem na escola para cursarem uma boa faculdade, aprenderem uma profissão, se formarem, conseguirem um bom emprego, ganharem muito dinheiro e vencerem na vida.". Mas, essas não são palavras de Robertt Kiyosaki  em Pai Rico Pai Pobre? Claro que são. Minha mãe nos transmitia a mesma idéia porém sob a forma de um discurso que tranquilamente poderia ser transcrevido em um longo artigo.

Eu e meu irmão nos esforçávamos muito nas escola, estávamos sempre entre os melhores alunos e em toda reunião de pais e professores os elogios eram certeiros. Minha mãe ficava cheia de orgulho e era só sorriso e, diga-se de passagem, muito bonito. Minha avó, nestas ocasiões, sempre levantava as mãos para o céu em agradecimento.

Eu entendia muito bem os motivos de tanta alegria: éramos crianças cujos pais tinham baixo poder aquisitivo, o correspondente a dois salários mínimos e estávamos estudando em uma boa escola de classe média com bolsa integral concedida após tirarmos nota máxima em alguns testes. Estávamos simplesmente nos destacando na escola e sempre éramos apontados como exemplos, embora eu não me sentisse nada confortável com isto, pois algumas vezes eu percebia um certo ar de preconceito. Estávamos virando quase um case, que chatisse! Enfim, tivemos uma vida escolar de sucesso, inclusive na faculdade.

Depois de muitos anos se dedicando a nos dar uma boa educação, meus pais atingiram o objetivo. Hoje somos ótimos profissionais e estamos financeiramente a anos luz da vida que eles tiveram. Quem nos conheçe pessoalmente acha que nascemos em berço de ouro. Grande engano!

Uma certa vez, na casa dos meus pais, eu estava curtindo a madrugada juntamente com minha mãe – tomando um bom vinho, queijo e batendo um gostoso papo. De repente, ela suspirou e me disse:

- Eu e seu pai queríamos muito que vocês estudassem. Seu pai se matava para comprar os livros, cadernos e alguns materiais extras. Muitas vezes ele pegava dinheiro com agiota e passava noites sem dormir devido a isto. Eu tentava ensiná-los assuntos que nem eu mesma sabia.

Ela começou a citar alguns exemplos embaraçosos e rolávamos de rir.

- Eu queria mesmo era que vocês não tivessem uma mente pobre. Ser financeiramente pobre não é vergonha, mas uma mente pobre fecha portas e possibilidades de crescimento tanto financeiro quanto pessoal. É por isto que queríamos que estudassem em boas escolas, mesmo que para isto tivéssemos que comer arroz e ovos por dias seguidos. Vocês tinham que conviver com pessoas que eram economicamente melhores e mais instruídas que nós, pois estas pessoas, de alguma maneira, poderiam empurrar vocês para frente.

Minha mãe estava coberta de razão. A convivência com pessoas economicamente mais confortáveis nos proporcionou oportunidades de conhecermos alguns poucos iluminados que conversavam sobre educação financeira, dinheiro, negócios e outros assuntos que para muitos, até hoje, ainda são tabus. Estes jovens profissionais prosperaram e após alguns anos atingiram a verdadeira independência financeira e hoje têm o privilégio de escolherem como e onde irão trabalhar.

Como já dito, não nasci em berço de ouro, mas com educação, disciplina e a convivência com as poucas pessoas que compartilham da idéia de se trilhar caminhos para se atingir a independência financeira, espero ter uma vida bem confortável no futuro, sem deixar de desfrutar de alguns prazeres no presente. Amigos, o caminho não é fácil, mas não é impossível. Sigamos em frente.

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