O inquilino perfeito! Perfeito?

By 13.3.17 , ,


Marcos era um inquilino perfeito: morava sozinho e pagava o aluguel religiosamente na data, enfim, era a materialização do sonho de qualquer locador. Num belo dia, no período de renovação do contrato, Marcos resolveu entregar o imóvel porque estava se mudando para outra cidade para aproveitar uma oportunidade profissional que lhe foi oferecida. Nesses dois anos em que ele ficou no apartamento nunca me foi apresentado qualquer tipo de problema.

Na mesma época em que Marcos desistiu de renovar o contrato de locação, minhas finanças estavam saindo dos trilhos e a solução era contrair um pequeno empréstimo bancário. Fui à agência bancária conversar com o gerente quando este me informou que eu tinha alguns títulos protestados, por isto eu não teria acesso ao crédito. Depois de rastrear que títulos eram esses acabei encontrando-os: oito boletos da taxa de condomínio que não foram pagos. Que pancada!

Agora, adivinhem quem foi o autor da arte? Sim, o excelente inquilino que acabara de se mudar para outra cidade. Eu tive que pagar a dívida com o condomínio, pois não havia como negá-la. Após isto, fui correr atrás do prejuízo. Marcos me decepcionou, não era tão perfeito assim.

Liguei para a administradora dos imóveis e contei toda a história e deixei bem claro que achei um absurdo o inquilino sair do imóvel sem ter sido verificado a existência de algum tipo de pendência como a ausência de pagamento de alguma taxa como IPTU, conta de água e luz ou taxa do condomínio. Para piorar a situação o inquilino bacana saiu sem pintar o apartamento.

Alguns dias depois do ocorrido eu viajei para a cidade onde se encontram os imóveis para resolver alguns problemas pessoais e aproveitei para ir até a imobiliária ouvir toda a história novamente e cobrar alguma ação por parte deles. Por azar, a funcionária da imobiliária que me atendeu era uma daquelas bem polidas, que estava engatinhando no mercado imobiliário, portanto, qualquer conversinha mole de inquilino era aceita facilmente por ela:

- Liguei para Marcos e ele me disse que o dinheiro era para ter sido depositado na semana passada, mas a pessoa que iria fazer o depósito sumiu com o dinheiro.

- Não acredito! E o que eu tenho haver com isto?

Eu não tinha muito tempo e por isto deixei a imobiliária para ir direto a uma loja de materiais de construção, afinal, um novo inquilino estava prestes a assinar o contrato de locação do apartamento e este precisava ser pintado.

Passados dois dias eu havia retornado à imobiliária para saber de alguma notícia:

- Ele irá depositar o dinheiro daqui a três dias, então teremos que aguardar.

Estava tão evidente que Marcos não tinha a menor intenção de saudar a dívidas. Que saudades da antiga funcionária da imobiliária! Ela era do tipo “durona” nas negociações, o caboclo passava aperto quando saia da linha, independentemente se era locador ou locatário. Mas a funcionária atual, não me passou nenhum pingo de firmeza. Eu já havia percebido que a história iria longe.

Passado os três dias de prazo, eu tinha voltado pela última vez à imobiliária, pois no dia seguinte eu teria que retornar para a cidade onde eu estava residindo. Pelo sorriso amarelo da funcionária da corretora eu já não esperava boas notícias:

- Ele gostaria de negociar um parcelamento. Propôs dividir a dívida em três vezes.

- PQP$&%! Acione logo a P@##@ do setor jurídico. Porque eu estou pagando caro esta imobiliária para cuidar da administração dos imóveis? Tive que pintar o apartamento, ouvir enrolação desse Marcos e agora mais uma M&R#A dessa? Onde está o fiador?

Sou uma pessoa naturalmente calma e eu evito linguajares extremamente chulos, mas a situação havia chegado a um ponto que estava virando brincadeira e detesto quando me fazem de tolo. Saí cuspindo marimbondos, precisava esfriar a cabeça diante de tanta baboseira.

Finalmente haviam levado o assunto ao conhecimento do fiador através de uma carta comunicando-lhe que na falta do pagamento da dívida pelo inquilino, o fiador deverá arcar com o seu pagamento. A partir daí o barco começou a se movimentar pois, o bolso de uma terceira pessoa tinha sido ameaçado. O maravilhoso inquilino teve a cara-de-pau para telefonar à imobiliária dizendo para eles terem cuidado, pois ela era uma pessoa conhecida, tinha prestígio e blá, blá, blá. No mínimo o fiador ligou para ele e deve ter dito umas boas verdades, afinal, quem quer assumir a dívida dos outros? Por isto eu nunca fui fiador de ninguém, nem diante de reza brava.

Eu continuava pressionando a imobiliária para resolver logo a questão. Eu não queria nem saber se iriam até o papa, mas o meu dinheiro teria que entrar na minha conta. Minha esposa já estava dando o dinheiro como perdido e que eu não deveria me estressar, mas eu não sou o tipo de pessoa que desiste fácil. Depois de alguns meses a imobiliária me ligou e dessa vez com boas notícias:  o dinheiro já está disponível. Ufa, que novela! Essa frase soou como música.

Espero não ter que passar por outro momento como este. A partir desse fato adotei o procedimento de algumas vezes ligar para as empresas administradoras dos condomínios para me certificar se as taxas estão sendo pagas. Fico imaginando a dor de cabeça do proprietário que administra diretamente seus imóveis quando se depara com uma situação semelhante, por isto eu não abro mão de uma imobiliária para administrar os meus imóveis.


Para se preservar o anonimato dos personagens os nomes citados são fictícios.

Esse período foi realmente complicado e estressante. Eu só descobri que tinha alguns títulos protestados porque fui ao banco solicitar um empréstimo. Essa história está descrita no artigo: O primeiro título protestado a gente nunca esquece.


You Might Also Like

22 comentários

Fica a critério do administrador do blog GERAÇÃO 65 excluir comentários considerados ofensivos ou que contenham palavras de baixo calão.